Old Hippies
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26/02/07, Leonardo Boff, O desafio amazônico, (Source).
26/02/07. Fausto Wolff, Olhe-se no espelho e pense, (Source).
26/02/07, Leonardo Boff, O desafio amazônico, (Back).
O tema da Campanha da Fraternidade da Igreja Católica do Brasil desta Quaresma é sobre a Amazônia. Milhões de fiéis durante as quatro semanas irão refletir sobre sua importância para nós e para o futuro da Terra.
A Amazônia abriga o maior patrimônio hídrico e genético do planeta. De um de nossos melhores estudiosos, Eneas Salati, sabemos: "Em poucos hectares da floresta amazônica existe um número de espécies de plantas e de insetos maior que em toda a flora e fauna da Europa". Mas esta floresta luxuriante é extremamente frágil, pois se ergue sobre um dos solos mais pobres e lixiviados da Terra. Se não controlarmos o desmatamento, em dezenas de anos a Amazônia poderá se transformar numa imensa savana.
Ela não é terra virgem e intocável. Em milhares de anos, dezenas de povos indígenas que ali viveram e vivem, atuaram como verdadeiros ecologistas. Grande parte de toda a floresta amazônica, especialmente de várzea, foi manejada pelos índios, promovendo "ilhas de recursos", criando condições favoráveis para o desenvolvimento de espécies vegetais úteis como o babaçu, a palmeira, o bambu, os bosques de castanheiras e frutas de toda espécie, plantadas ou cuidadas para si e para aqueles que, porventura, por lá passassem. As famosas "terras pretas de índios" remetem para esse manejo.
A idéia de que o índio é genuinamente natural representa uma ecologização errônea dele, fruto do imaginário urbano, fatigado pela artificialização da vida. Ele é um ser cultural. Como atesta o antropólogo Viveiros de Castro: "A Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades que ali vivem são resultado de séculos de convivência com a Amazônia". O mesmo diz E. E. Moraes em seu instrutivo livro Quando o Amazonas corria para o Pacífico (Vozes 2007): "Resta pouca natureza intocada e não alterada pelos humanos na Amazônia". Por 1.100 anos os tupi-guaranis dominaram vastíssimo território que ia dos contrafortes andinos do rio Amazonas até as bacias do Paraguai e do Paraná.
Índio e floresta, portanto, se condicionam mutuamente. As relações não são naturais mas culturais, numa teia intrincada de reciprocidades. Eles sentem e vêem a natureza como parte de sua sociedade e cultura, como prolongamento de seu corpo pessoal e social. Para eles a natureza é um sujeito vivo e carregado de intencionalidades. Não é como para nós, modernos, algo objetal, mudo e sem espírito. A natureza fala, e o indígena entende sua voz e mensagem. Por isso ele está sempre auscultando a natureza e se adequando a ela num jogo complexo de inter-retro-relações. Encontraram um sutil equilíbrio sócio-cósmico e uma integração dinâmica, embora houvesse também guerras e verdadeiros extermínios como aqueles dos sambaquieiros e de outras tribos.
Mas há sábias lições que precisamos aprender deles face às atuais ameaças ambientais. Importa entender a Terra não como algo inerte, com recursos ilimitados, disponíveis a nosso bel-prazer. Mas como algo vivo, a Mãe do índio a ser respeitada em sua integridade. Se uma árvore é derrubada, faz-se um rito de desculpa para resgatar a aliança de amizade. Precisamos de uma relação sinfônica com a comunidade de vida, pois, como foi comprovado, Gaia já ultrapassou seu limite de suportabilidade. Se deixarmos as coisas correrem e não fizermos nada, as ameaças se tornarão devastadora realidade.
26/02/07. Fausto Wolff, Olhe-se no espelho e pense, (Back).
O movimento hippie chegou ao fim junto com os anos 70. Na ocasião, escrevi no jornal Aktuelt, do Partido Socialista Dinamarquês, que deveríamos utilizar o melhor do seu legado: a busca da sabedoria, a luta pela liberdade, a procura da integridade com a natureza, a simplicidade no trajar, as comunidades familiares, a guerra a preconceitos odiosos e assim por diante. Ocorreu exatamente o contrário. O sistema, que fatura até com seus inimigos e usou o movimento para glamourizar suas roupas despojadas, esqueceu-se de suas propostas de paz e liberdade para enfatizar a anarquia, as barbas e cabelos longos, a irresponsabilidade e até mesmo tatuagens em hemorróidas expostas.
O estômago do sistema é como o do urubu: suporta tudo. Ganhou dinheiro com Einstein e Soljenitsin, ganhou dinheiro com os campos de concentração nazistas e ainda ganhará com a morte dos ciganos. Levará algum tempo, mas faturará sobre os últimos sobreviventes de Hiroshima. Os filhos dos hippies já nasceram subgerentes de bancos e os netos já entram para a universidade sabendo em que companhia comercial, industrial ou digital pretendem passar a vida.
Hoje, comprovadas as minhas palavras - vivemos num mundo fascista que domina homens alienados -, verifico que as mudanças políticas e econômicas acabaram por destruir as conquistas culturais que vão de Homero a Norman Mailer, para citar um grande escritor vivo. Nos últimos 35 anos, vem se tentando destruir o pensamento em favor do lucro. Quem pensa não compra o que lhe é imposto, e quem não compra o que é imposto é inútil para o sistema.
Depois dos genocídios proporcionados pela Alemanha e pelos EUA, o grande crime do século 20 foi o genocídio mental. Não estou dizendo que devemos voltar à Grécia Antiga, ao Império Egípcio ou Romano, à Idade Média, à Renascença, ao Iluminismo, ao Existencialismo. Acho porém que, quanto mais distante no passado formos buscar respostas para nossos problemas, mais nos projetaremos num futuro melhor. Repito o que escrevi em 1979: devemos dar à juventude uma chance de voltar sua atenção para os clássicos, porque estou certo de que eles nos ajudariam a viver como seres humanos e não como feras gananciosas e mesquinhas.
O que vemos atualmente é uma educação ocidental deteriorada. Caso contrário, não acharíamos natural Kennedy, Johnson e Nixon (três loucos) invadirem o Vietnam como este Édipo Tampinha, Bush, invade o Afeganistão e o Iraque. É verdade que, para os que tinham algum dinheiro, a vida melhorou bastante, pois o cérebro pouco exigente nada mais pede que casa, carro e novela de TV.
Como vêem, o homem não tem por que se orgulhar da alimentação moral, intelectual e espiritual que recebeu. Mas não é este homem medíocre, no sentido de médio, que deve ser responsabilizado, e sim aqueles que manipulam o seu cérebro e o põem na linha de montagem.
Os próprios distribuidores da peste acham honestamente que estão certos. Receberam a realidade de uma certa forma e acham que esta forma é a verdadeira. O próprio jornalismo que fazem é sobre as informações enviadas por esta falsa realidade. E se ela é falsa cabe aos meios de comunicação honestos que ainda existem denunciar esta falsidade. Perderiam dinheiro se fizessem isso? Não creio, pois você pode enganar alguns leitores algum tempo, outros por outro tempo, mas não todos ao mesmo tempo.
Proponho uma volta a Homero, Sócrates, Platão, Aristóteles, Virgílio, Plotino, Plutarco, Marco Aurélio, Dante, Erasmo, Maquiavel, Rabelais, Copérnico, Montaigne, Cervantes, Shakespeare, Galileu, Molière, Descartes, Spinoza até Marx, Freud, Wittgenstein e Chomsky para citar o mínimo do máximo.
Os livros desses autores mostram onde se originaram nossas dificuldades e são mais necessários hoje do que nunca. Reduzir o cidadão a objeto da propaganda pública e privada é o maior dos riscos que corremos. O primeiro passo - no caso dos meios de comunicação - é respeitar o leitor em vez de acreditar que ele é uma criatura boba e previsível, um objeto montável e desmontável.
(Back)
26/02/07. Fausto Wolff, Olhe-se no espelho e pense, (Source).
26/02/07, Leonardo Boff, O desafio amazônico, (Back).
O tema da Campanha da Fraternidade da Igreja Católica do Brasil desta Quaresma é sobre a Amazônia. Milhões de fiéis durante as quatro semanas irão refletir sobre sua importância para nós e para o futuro da Terra.
A Amazônia abriga o maior patrimônio hídrico e genético do planeta. De um de nossos melhores estudiosos, Eneas Salati, sabemos: "Em poucos hectares da floresta amazônica existe um número de espécies de plantas e de insetos maior que em toda a flora e fauna da Europa". Mas esta floresta luxuriante é extremamente frágil, pois se ergue sobre um dos solos mais pobres e lixiviados da Terra. Se não controlarmos o desmatamento, em dezenas de anos a Amazônia poderá se transformar numa imensa savana.
Ela não é terra virgem e intocável. Em milhares de anos, dezenas de povos indígenas que ali viveram e vivem, atuaram como verdadeiros ecologistas. Grande parte de toda a floresta amazônica, especialmente de várzea, foi manejada pelos índios, promovendo "ilhas de recursos", criando condições favoráveis para o desenvolvimento de espécies vegetais úteis como o babaçu, a palmeira, o bambu, os bosques de castanheiras e frutas de toda espécie, plantadas ou cuidadas para si e para aqueles que, porventura, por lá passassem. As famosas "terras pretas de índios" remetem para esse manejo.
A idéia de que o índio é genuinamente natural representa uma ecologização errônea dele, fruto do imaginário urbano, fatigado pela artificialização da vida. Ele é um ser cultural. Como atesta o antropólogo Viveiros de Castro: "A Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades que ali vivem são resultado de séculos de convivência com a Amazônia". O mesmo diz E. E. Moraes em seu instrutivo livro Quando o Amazonas corria para o Pacífico (Vozes 2007): "Resta pouca natureza intocada e não alterada pelos humanos na Amazônia". Por 1.100 anos os tupi-guaranis dominaram vastíssimo território que ia dos contrafortes andinos do rio Amazonas até as bacias do Paraguai e do Paraná.
Índio e floresta, portanto, se condicionam mutuamente. As relações não são naturais mas culturais, numa teia intrincada de reciprocidades. Eles sentem e vêem a natureza como parte de sua sociedade e cultura, como prolongamento de seu corpo pessoal e social. Para eles a natureza é um sujeito vivo e carregado de intencionalidades. Não é como para nós, modernos, algo objetal, mudo e sem espírito. A natureza fala, e o indígena entende sua voz e mensagem. Por isso ele está sempre auscultando a natureza e se adequando a ela num jogo complexo de inter-retro-relações. Encontraram um sutil equilíbrio sócio-cósmico e uma integração dinâmica, embora houvesse também guerras e verdadeiros extermínios como aqueles dos sambaquieiros e de outras tribos.
Mas há sábias lições que precisamos aprender deles face às atuais ameaças ambientais. Importa entender a Terra não como algo inerte, com recursos ilimitados, disponíveis a nosso bel-prazer. Mas como algo vivo, a Mãe do índio a ser respeitada em sua integridade. Se uma árvore é derrubada, faz-se um rito de desculpa para resgatar a aliança de amizade. Precisamos de uma relação sinfônica com a comunidade de vida, pois, como foi comprovado, Gaia já ultrapassou seu limite de suportabilidade. Se deixarmos as coisas correrem e não fizermos nada, as ameaças se tornarão devastadora realidade.
26/02/07. Fausto Wolff, Olhe-se no espelho e pense, (Back).
O movimento hippie chegou ao fim junto com os anos 70. Na ocasião, escrevi no jornal Aktuelt, do Partido Socialista Dinamarquês, que deveríamos utilizar o melhor do seu legado: a busca da sabedoria, a luta pela liberdade, a procura da integridade com a natureza, a simplicidade no trajar, as comunidades familiares, a guerra a preconceitos odiosos e assim por diante. Ocorreu exatamente o contrário. O sistema, que fatura até com seus inimigos e usou o movimento para glamourizar suas roupas despojadas, esqueceu-se de suas propostas de paz e liberdade para enfatizar a anarquia, as barbas e cabelos longos, a irresponsabilidade e até mesmo tatuagens em hemorróidas expostas.
O estômago do sistema é como o do urubu: suporta tudo. Ganhou dinheiro com Einstein e Soljenitsin, ganhou dinheiro com os campos de concentração nazistas e ainda ganhará com a morte dos ciganos. Levará algum tempo, mas faturará sobre os últimos sobreviventes de Hiroshima. Os filhos dos hippies já nasceram subgerentes de bancos e os netos já entram para a universidade sabendo em que companhia comercial, industrial ou digital pretendem passar a vida.
Hoje, comprovadas as minhas palavras - vivemos num mundo fascista que domina homens alienados -, verifico que as mudanças políticas e econômicas acabaram por destruir as conquistas culturais que vão de Homero a Norman Mailer, para citar um grande escritor vivo. Nos últimos 35 anos, vem se tentando destruir o pensamento em favor do lucro. Quem pensa não compra o que lhe é imposto, e quem não compra o que é imposto é inútil para o sistema.
Depois dos genocídios proporcionados pela Alemanha e pelos EUA, o grande crime do século 20 foi o genocídio mental. Não estou dizendo que devemos voltar à Grécia Antiga, ao Império Egípcio ou Romano, à Idade Média, à Renascença, ao Iluminismo, ao Existencialismo. Acho porém que, quanto mais distante no passado formos buscar respostas para nossos problemas, mais nos projetaremos num futuro melhor. Repito o que escrevi em 1979: devemos dar à juventude uma chance de voltar sua atenção para os clássicos, porque estou certo de que eles nos ajudariam a viver como seres humanos e não como feras gananciosas e mesquinhas.
O que vemos atualmente é uma educação ocidental deteriorada. Caso contrário, não acharíamos natural Kennedy, Johnson e Nixon (três loucos) invadirem o Vietnam como este Édipo Tampinha, Bush, invade o Afeganistão e o Iraque. É verdade que, para os que tinham algum dinheiro, a vida melhorou bastante, pois o cérebro pouco exigente nada mais pede que casa, carro e novela de TV.
Como vêem, o homem não tem por que se orgulhar da alimentação moral, intelectual e espiritual que recebeu. Mas não é este homem medíocre, no sentido de médio, que deve ser responsabilizado, e sim aqueles que manipulam o seu cérebro e o põem na linha de montagem.
Os próprios distribuidores da peste acham honestamente que estão certos. Receberam a realidade de uma certa forma e acham que esta forma é a verdadeira. O próprio jornalismo que fazem é sobre as informações enviadas por esta falsa realidade. E se ela é falsa cabe aos meios de comunicação honestos que ainda existem denunciar esta falsidade. Perderiam dinheiro se fizessem isso? Não creio, pois você pode enganar alguns leitores algum tempo, outros por outro tempo, mas não todos ao mesmo tempo.
Proponho uma volta a Homero, Sócrates, Platão, Aristóteles, Virgílio, Plotino, Plutarco, Marco Aurélio, Dante, Erasmo, Maquiavel, Rabelais, Copérnico, Montaigne, Cervantes, Shakespeare, Galileu, Molière, Descartes, Spinoza até Marx, Freud, Wittgenstein e Chomsky para citar o mínimo do máximo.
Os livros desses autores mostram onde se originaram nossas dificuldades e são mais necessários hoje do que nunca. Reduzir o cidadão a objeto da propaganda pública e privada é o maior dos riscos que corremos. O primeiro passo - no caso dos meios de comunicação - é respeitar o leitor em vez de acreditar que ele é uma criatura boba e previsível, um objeto montável e desmontável.
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