Click Post Title for Original Link
They say sing while you slave but I just get bored.

Heróis

Post
24/05/07, Marc Dourojeanni, Os novos heróis ambientais, Source.
12/07/07, José Augusto Pádua, Chico Mendes foi um herói ambiental?, Source.


24/05/07, Marc Dourojeanni, Os novos heróis ambientais, (Back).

“Chico” Mendes e Dorothy Stang foram brutalmente assassinados porque os interesses que defendiam se opunham frontalmente aos de fazendeiros locais com poucos escrúpulos. O que estava em disputa era, incontestavelmente, o direito ao uso e usufruto de uma porção de terra. Então, cabe perguntar se o uso a ser dado a essa terra e aos seus recursos, por ambos os grupos de interesse, teria sido tão diferente, transformando uns em protetores da natureza e os outros nos seus inimigos. Qualquer resposta honesta a essa pergunta é que pouca coisa mudaria no destino final da floresta, ou seja, a exploração da madeira seguida por sua conversão a usos agropecuários. Então, porque Chico Mendes virou um herói ambiental de tanta significância no seu país e no mundo e a irmã Dorothy Stang é proclamada, até na CNN e na BBC, como defensora da floresta amazônica?

Chico Mendes não era, nem pretendeu ser, um “ambientalista” até que seus assessores intelectuais (norte americanos e brasileiros) descobriram ser essa a melhor tática a empregar na sua luta contra os fazendeiros, que reclamavam a mesma terra e recursos, para assim receber o apoio das autoridades do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que financiava a construção de uma estrada no Acre. A justificação era curta e grossa: Naqueles dias, onde trabalhavam os seringueiros existia mata, consequentemente “ficava demonstrado que eles a exploravam, conservando-a”. A diretoria do Banco, acusada de contribuir para o desmatamento da Amazônia, favorecer os seus depredadores e preocupada com a sua imagem, decidiu ameaçar o governo com a paralisação do empréstimo se não se atendesse os reclamos. Constatado o sucesso da ação, Chico Mendes, que era um orador notável, passou a explorar o tema ambiental em todas suas intervenções públicas, aportando muito à mitologia da intimidade harmoniosa entre o ambiente e o desenvolvimento social.

O resultado prático da luta de Chico Mendes foi a adoção no Brasil de uma nova categoria de “unidade de conservação”: as reservas extrativistas. Em honra à verdade, as reservas extrativistas não se iniciaram como unidades de conservação. Era uma alternativa tecnocrática que resolvia o conflito, legalizando o uso da terra pelos seringueiros, transformados em “extrativistas”. A idéia, então já aplicada em outros países da América do Sul, era que sob circunstâncias especiais populações indígenas e tradicionais poderiam, com planos de manejo de aplicação supervisada por entidades especializadas do governo, explorar com exclusividade os recursos naturais renováveis diferentes da madeira (por exemplo, borracha e castanha do Pará) e/ou caçar e pescar em áreas públicas definidas e demarcadas, próximas a suas comunidades. Essas áreas eram conhecidas como reservas comunais e nelas não se permitiam populações residentes. Era reconhecido que o outro objetivo dessas reservas era ampliar o espaço vital à disposição de comunidades pobres, garantindo exclusividade de uso dos recursos naturais para elas e, por isso, essas áreas não eram consideradas “unidades de conservação” e, sim, apenas um insumo a mais de uma estratégia de conservação da natureza.

Ou seja, as reservas extrativistas nasceram sem pecado original. Tratava-se de uma estratégia válida em termos sociais e interessantes para a natureza, pois implicava em um freio à expansão desenfreada da pecuária e da agricultura, embora se pudesse duvidar da sua viabilidade econômica e ambiental no longo prazo. O problema surgiu quando seus promotores passaram a advogar sua transformação em unidade de conservação, o que foi consolidado no ano 2000, com a lei do sistema de unidades de conservação que, no mesmo ato, também transformou as florestas nacionais e estaduais em outra categoria de unidade de conservação. As unidades de conservação de verdade são propostas e estabelecidas para proteger a perpetuidade (se possível) amostras representativas da natureza, dos ecossistemas naturais e da biodiversidade contra a ação humana (de quem mais seria?). As reservas extrativistas, pelo contrário, se estabelecem onde existem presença e atividade humana, para resolver um problema social concreto, baseado na exploração direta, sustentável se possível, dos recursos naturais. Seu valor para o objetivo de preservar a natureza é, evidentemente, menor e, é usualmente, apenas temporário.

O anterior fica evidente considerando o que já se observa com as florestas transformadas em reservas extrativistas. Das muitas que foram estabelecidas no Brasil, as mais antigas já perderam amplas porções dos seus territórios para a expansão agropecuária dos próprios extrativistas, que como muitos especialistas previam, mal conseguem sobreviver catando castanha (sem deixar nada para a regeneração das árvores) ou sangrando (muitas vezes até a morte) as seringueiras. Existem provas incontestáveis, visíveis até a olho nu, para quem queira saber a verdade, sobre a situação cada vez menos natural dessas “unidades de conservação” onde, ademais, agora se está tolerando a exploração florestal, obviamente sem manejo efetivo. A caça e a pesca, já não apenas para sustento familiar, têm sido de práxis nessas reservas e, atualmente, a fauna de interesse comercial já foi praticamente eliminada. O apoio do governo federal ou estadual (também existem reservas extrativistas estaduais) tem-se limitado a subsídios generosos e a infra-estrutura social. De fato, na sua maioria, essas reservas não dispõem de plano de manejo e, de qualquer modo, estes não são respeitados. O governo não tem controle efetivo sobre o que acontece nessas áreas. Apesar de tudo é verdade que, se comparado ao que aconteceu em outras áreas sem proteção sequer legal, o que subsiste da natureza está melhor nelas que fora delas. Mas, por quanto tempo?

Hoje, os extrativistas que ganharam a posse da terra que antes exploravam sob a sombra dos fazendeiros têm a certeza absoluta que nunca mais será discutido seu direito a ficar nela. Podem até não cumprir ostentosamente a já tão permissiva legislação, como no caso dos muitos deles que criam gado para comercialização de carne, sabendo que ninguém poderá tirar-los de lá, nem evitar que ano após ano derrubem mais mata que estorva a expansão de pastagens e cultivos. Na prática, estes ex-seringueiros ou, por enquanto, pequenos fazendeiros, são agora os “donos” da terra e, claro, estão politicamente muito bem organizados e preparados para rejeitar, com eficiência, qualquer intenção de por ordem ou aplicar a lei, que limita a expansão agropecuária. Em muitas das reservas extrativistas de hoje já se superou longamente os 20% de desmatamento para fins agropecuários que a lei permite em qualquer propriedade rural da Amazônia. Assim sendo, no final das contas, Chico Mendes foi o artífice de uma grande reforma agrária branca ou branda e é por isso que deveria ser reconhecido e, com sinceridade, também admirado e respeitado.

O caso de Dorothy Stang como ambientalista é ainda mais curioso. Ela nem sequer usou ou abusou de discursos esverdeados, como os que sugeriam os intelectuais que assessoravam Chico Mendes. O objetivo da freira, muito louvável sem dúvida, era ajudar os pobres a viver melhor, vencendo flagrantes injustiças no campo. Ela, como Chico Mendes, era uma lutadora social. Ela queria terra para os sem terra; queria terra “improdutiva” ou “abandonada”, ou seja, com cobertura florestal, para seus pobres. Nada errado tem essa intenção; bem ao contrário, é louvável. Mas, o triunfo das suas idéias não implicaria nenhum beneficio para a natureza ou o meio ambiente. As árvores derrubadas e os ecossistemas transformados em campos de cultivo ou pastagens para gado não sentem, nem apreciam a diferença entre os machados dos pobres e os tratores dos ricos. Apenas morrem irremediavelmente e deixam de dar seus serviços ambientais para a sociedade. Porque, então, Dorothy Stang está virando heroína ambiental?

Os que foram assassinados no Brasil por defender a floresta, tão só em 2006, como Eduardo Marcelino Ventura Veado, em Minas Gerais ou Dionísio Júlio Ribeiro, no Rio de Janeiro, apenas mereceram um breve comunicado nos jornais e, certamente, seu nome nem sequer será dado a uma praça da localidade. Como tantos outros que deram toda a vida para defender o patrimônio natural (oito foram assassinados apenas na mesma unidade de conservação onde Dionísio Júlio Ribeiro trabalhava), não serão reconhecidos como heróis nacionais ou internacionais e não terão manifestações públicas, bandeirolas e depredação de locais públicos, para que a condenação dos seus assassinos seja a máxima que a lei (e a pressão política) permite. O assassinato brutal de Eduardo Marcelino e da sua esposa, disfarçado como acidente, ficou sob a tutela do mesmo assessor da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República que conseguira fazer atender, brilhantemente, o caso de Dorothy Stang, mas que nada obteve no caso do ambientalista. Bem no contrário, não faltaram os pensadores sociais que justificaram a ação dos assassinos, obrigados pela pobreza e a injustiça, a matar para sobreviver, cortando palmito ou caçando muriquis, também já quase extintos, nas áreas protegidas por ambientalistas insensíveis. É exatamente o mesmo critério que transforma as mulheres estrupadas e os seqüestrados torturados em culpáveis das misérias a que são submetidos e que, pelo mesmo artifício, faz dos delinqüentes apenas vítimas trágicas da sociedade.

À margem das vantagens táticas de construir uma imagem de ambientalistas e defensores da floresta amazônica para Chico Mendes e Dorothy Stang, cabe perguntar por que existe tanto empenho nessa pretensão. Obter simpatia e apoio internacional é importante, mas, parece ter algo mais. Provavelmente a resposta seja que o chamado socioambientalismo, tendência agora importante no cenário ambiental, esteja precisando de novos heróis para fomentar suas teorias que incluem a extravagante idéia de que a natureza se beneficia das agressões dos seres humanos, sempre e quando eles sejam pobres. Assim, desmatamentos feitos por populações “tradicionais” e indígenas enriquecem a biodiversidade e mantém o funcionamento dos serviços ambientais. Desmatamentos feitos por ricos destroem a biodiversidade e anulam os serviços ambientais. Essas idéias são agora dogmas que alimentam uma nova teologia que parece estar necessitando também de santos. E não se deve acreditar que isso é uma invenção latino americana. O socioambientalismo tem suas raízes nos mesmos ambientes europeus e norte americanos que são denunciados pelas esquerdas como imperialistas. Nasceu no mesmo berço dos ricos e poderosos que financiam a muitas das organizações não governamentais transnacionais que agora racham suas vestiduras verdes mostrando o vermelho por baixo.

O mundo precisa, sim, de mais pessoas como Chico Mendes e Dorothy Stang. Lutadores como eles, inclusive sem ter sido vítimas mortais da estupidez, merecem todo o respeito e o reconhecimento da sociedade. Eles são heróis, sim, mas não são heróis ambientais. Nem precisam sê-lo.


12/07/07, José Augusto Pádua, Chico Mendes foi um herói ambiental?, (Back).

À memória de Arnaldo Ferreira

Apesar de eventuais discordâncias, aprecio os textos de Marc Dourojeanni, meu colega no grupo de colunistas d´O ECO. Admiro a coragem com que expõe seus pontos de vista, algumas vezes bastante polêmicos. Em uma de suas últimas colunas, porém, intitulada ,“Os Novos Heróis Ambientais” ele fez uma afirmação da qual discordo completamente, pois se choca com experiências concretas que tive a oportunidade de vivenciar. Ele afirmou, entre outras coisas, que Dorothy Stang e Chico Mendes “são heróis, sim, mas não são heróis ambientais”. Conheci superficialmente a irmã Dorothy, mas creio que o que vou dizer aqui também se aplica, ao menos em parte, ao seu caso. Já com Chico Mendes tive a oportunidade de conviver melhor, de observar sua prática, de bater longos papos sobre os seus (e nossos) anseios, idéias e preocupações. Como estou convicto, segundo critérios que procurarei demonstrar, de que Chico foi um verdadeiro herói ambiental, imaginei que vários leitores contestariam a afirmação de Marc. Para minha surpresa, contudo, os oito leitores que se manifestaram concordaram com ela. Pensei inicialmente em escrever uma carta. Mas depois, valendo-me da condição de colunista, resolvi trabalhar o tema com mais cuidado. Os colunistas e leitores d´O ECO são livres para escrever o que quiserem. Não se trata de polemizar no plano pessoal. Ocorre que o assunto é importante e merece um debate mais profundo.

Um dos leitores, assinando como “observador”, defendeu a tese de que Chico e Dorothy foram considerados heróis ambientais porque “a sociedade brasileira, e em especial a amazônica, é carente de ídolos e mártires”. Será? Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, observo que a sociedade brasileira é relativamente pouco cuidadosa com a imagem dos seus heróis. Talvez por termos uma sociedade (e mais que tudo uma elite) tão persistente no erro, nossa memória é curta para aqueles que ousaram colocar o dedo em nossas feridas seculares. Um personagem como José Bonifácio teria sido exaustivamente pesquisado e cultuado na América do Norte. Enquanto que aqui, apesar de alguns avanços recentes, inclusive no que se refere à difusão de suas brilhantes análises ambientais, permanece em grande parte ignorado.

Será correta a famosa frase de Brecht de que é “infeliz o povo que precisa de heróis”? Depende. Espero que chegue o dia em que as virtudes republicanas sejam tão evidentes no Brasil que não precisemos nos mirar no exemplo de vidas mais éticas e idealistas. Não é difícil concluir, observando a atual vida brasileira, que estamos muito longe de prescindir de tais exemplos. Pois, afinal, o que é um herói? Apenas uma pessoa que conseguiu ir radicalmente além de suas preocupações e interesses individuais para identificar-se e agir de acordo com valores e causas coletivas, tornando-se uma referência para os seus concidadãos. Não basta estar disposto a morrer. Muitos valentões e bandidos estão dispostos a morrer por orgulho, ganância ou o que seja. Estou falando de pessoas dispostas a viver e morrer pelo que acreditam ser o bem comum. Alguns logram receber um grande reconhecimento publico, outros permanecem quase anônimos. Mas, como diz um poema do mesmo Brecht, “estes são os imprescindíveis”. Essa é a minha definição de “herói”. Quem quiser que apresente outra.

Hierarquia das necessidades?

Que Chico Mendes foi um herói, assim como a irmã Dorothy, o próprio Marc concorda. Mas terá sido um herói ambiental? Imagino, tenho quase certeza, que o autor da coluna não conheceu o Chico pessoalmente. Pois quem o conheceu com mais proximidade não teve dúvidas da sinceridade do seu ambientalismo. Não se trata de ser um “orador notável” ou de estar taticamente convencido de que o ambientalismo era um aliado de sua luta social. Em suas palavras, em sua prática, a veracidade do defensor da floresta era evidente. Mas é claro que esse não era o seu único objetivo. O líder sindical, o líder socialista, também era uma realidade evidente. E por que as duas coisas precisam ser mutuamente excludentes? A novidade não está justamente na aproximação entre cuidado ambiental, direitos humanos e direitos sociais?

Vejo que é comum se projetar sobre Chico duas imagens igualmente superficiais e estereotipadas. A primeira, ainda presente em setores da opinião publica internacional, é a do “homem da floresta” que abraçava árvores, beijava jabutis e só pensava em salvar da destruição o seu amado mundo verde. A segunda é a do líder sindical que apenas usou, por “razões táticas”, o discurso ambientalista como arma simbólica na sua luta pela terra. Ou então, por outro ângulo, o líder sindical cuja luta pela terra foi usada por ambientalistas, também por “razões táticas”, no seu esforço para deter a destruição da floresta. Ambas as visões são abstratas e externas. O que falta nelas é o respeito pelo homem real, com suas crenças, idéias e práticas. O respeito pelo ator social consciente e sujeito da sua própria história.

A segunda projeção, no fundo, se baseia na visão preconceituosa e mecanicista que foi chamada por alguns analistas de “hierarquia das necessidades”. Ou seja, os pobres precisam cuidar de encher sua barriga, conseguir um emprego e ter um lugar para morar. As preocupações com a qualidade de vida, com a integridade e beleza do lugar onde se vive, para não falar em valores universais como a sobrevivência da humanidade e a conservação da biodiversidade, são sofisticadas demais para eles. Só os que já estão com a vida ganha podem ter o direito de cultivar tais valores “pós-materiais”. Donde se entende que um líder sindical, um defensor dos direitos sociais, não pode ser um verdadeiro ambientalista. Ora, a realidade histórica vem desmentindo radicalmente essa visão preconceituosa. Quem quiser saber mais detalhes pode ler o amplo inventário feito por Joan Martinez Alier em seu livro “Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Evaluation” (2003). É absolutamente racional, aliás, que comunidades pobres do campo e da cidade sejam ativas na luta contra a destruição ambiental, já que elas são as primeiras a sofrer, de forma dura e direta, os efeitos da poluição, do desmatamento etc. Basta fazer um pequeno esforço de observação geográfica para notar que as fábricas mais poluentes, os depósitos de lixo mais perigoso e o barulho das motoserras não costumam estar presentes na proximidade de onde vivem os ricos... O tema da “justiça ambiental”, nascido a partir dessa realidade, é um dos mais fecundos e reveladores no debate ambientalista contemporâneo.

É preciso reconhecer, além disso, apesar dos preconceitos, que não existe qualquer impedimento sociológico ou cultural para que os pobres se preocupem com o futuro da humanidade e cultivem os valores essenciais da defesa da vida e do meio ambiente. Muito pelo contrário. Os ricos, ao que parece, não se mostram muito dispostos em realizar tão nobres desígnios. Tudo bem, possíveis fiscais do anti-populismo. Não estou sendo romântico e afirmando que tudo o que os pobres fazem é ambientalmente benéfico e bem intencionado. Os problemas ambientais devem ser avaliados concretamente, considerando os seus contextos específicos, e enfrentados de maneira racional e justa, independente de quem sejam os seus agentes (o que, aliás, raramente acontece na obscenamente injusta sociedade brasileira). Mas estou falando de seres humanos reais, com seus defeitos e qualidades, que devem ser respeitados em seus direitos de cidadania. Estou afirmando também que a melhor política ambiental deve estimular as comunidades e grupos populares a se tornarem aliados e não adversários da conservação e da sustentabilidade. Um processo que é obviamente complicado e difícil, cheio de avanços e retrocessos. Mas que não é mais complicado e difícil do que qualquer outro esforço de transição para padrões sustentáveis de produção e consumo. De toda forma, não tenho dúvidas em afirmar, com base nos dados concretos, que o superconsumo dos ricos e poderosos é hoje a grande mola propulsora da destruição do planeta. Apesar disso já vi alguns ambientalistas manifestarem grande confiança na conversão verde de empresários dotados de um gigantesco passivo ambiental e desconfiarem de qualquer esforço feito por comunidades pobres, cujo grande passivo é o sofrimento, no sentido de desenvolver práticas ambientais corretas.

Interação criativa

Uma boa pergunta a ser feita, aliás, seria “o que é um ambientalista”? Quem trabalha na área sabe que não existe uma definição canônica, apesar de várias correntes se considerarem o verdadeiro ambientalismo, o “puro sangue”, em detrimento das outras. Na verdade, uma análise mais ampla e imparcial revela que o fenômeno do ambientalismo se tornou cada vez mais complexo e multissetorial. Os estudos de alguns analistas, como Eduardo Viola e Hector Leis, mostram que o ambientalismo não pode mais ser considerado como um movimento social, até por falta de unidade conceitual e metodológica. É mais fecundo pensá-lo como um movimento histórico que vem produzindo mudanças nos diferentes setores da sociedade. Cada setor vem sendo desafiado pela evidência da crise ecológica, assim como pela riqueza da discussão ambiental, a reformular importantes conceitos e padrões de comportamento na sua esfera de atuação, visando construir relações mais sinérgicas e sustentáveis com o mundo natural. Seria possível falar, portanto, de ambientalismos empresariais, sindicais, religiosos etc. Note-se que estou falando em transformações reais de conceitos e comportamentos, não de maquiagens e blá-blá-blá.

Da maneira mais genérica possível, pode-se dizer que ambientalista é aquele que aceita, de forma consciente e sincera, a radicalidade do desafio ecológico. Uma aceitação que, obviamente, precisa se manifestar em ação. Ou seja, produzir, dentro da esfera de vida de cada um, transformações positivas no relacionamento entre os seres humanos e o meio ambiente. É perfeitamente racional, porém, que a consciência ecológica se conjugue com outros objetivos sociais, econômicos e políticos. Conheço alguns empresários, por exemplo, que desenvolveram uma forte consciência ecológica e estão fazendo um grande esforço para limpar as suas empresas, considerando todo o ciclo de vida dos produtos. Mas seria irracional imaginar que esses empresários deveriam abrir mão da sua vontade de lucrar, ou mesmo de utilizar as reformas ambientais como instrumento para aumentar os seus lucros. Repito que estou falando de mudanças reais, não de maquiagem verde. É inteiramente racional, da mesma forma, que comunidades e sindicatos rurais possam associar o desenvolvimento de uma forte consciência ecológica com o objetivo de conquistar a terra e nela implantar meios de vida sustentáveis.

O texto de Dourojeanni diz que “Chico Mendes não era, nem pretendeu ser, um ´ambientalista´ até que seus assessores intelectuais (norte-americanos e brasileiros) descobriram ser essa a melhor tática a empregar na sua luta contra os fazendeiros”. Dá a impressão de que ao líder sindical cabia apenas seguir, ou maquiavelicamente estimular, as descobertas brilhantes dos seus assessores intelectuais. Será que a história não é mais complexa e generosa? Lembro de uma vez em que Chico me disse o seguinte: que tinha muita gratidão pelos ambientalistas, por que com eles aprendeu linguagens e conceitos que o ajudaram a entender e explicar melhor alguns problemas e alternativas que de alguma forma já vinha percebendo e elaborando. Estamos falando, portanto, de um diálogo entre sujeitos, de uma aprendizagem mútua. Algo bem diferente de usar ou ser usado. Estamos falando de um processo de interação criativa que ocorreu na vida real, com suas descobertas, tensões e contradições. Ninguém nasce ambientalista. As situações de vida e os aprendizados de cada um é que produzem esse tipo de opção ética. Os conceitos e linguagens do ambientalismo não teriam valor para o movimento dos seringueiros se não viessem ao encontro dos problemas, visões e lutas que ele já vivia. No rastro desse processo, muitos trabalhadores extrativistas se reconheceram como ambientalistas e muitos ambientalistas passaram a conhecer melhor a violência da luta pela terra, aprendendo a ser solidários com os que sofriam injustiças seculares.

É claro que Chico Mendes, enquanto líder sindical rural, lutava pela reforma agrária e pela conquista da terra para os seringueiros, que sofriam de grande carência e insegurança material. Concordo que a luta pela terra, por si mesma, não é necessariamente ambientalista. Mas posso afirmar que a luta de Chico e dos seus companheiros, da forma como ela se desenvolveu no plano subjetivo e objetivo, foi sim ambientalista. Recordo de uma outra conversa em que Chico me falou com grande entusiasmo sobre a possibilidade de construir nas reservas extrativistas habitações seguras e confortáveis que poupassem madeira, que usassem energia solar e que reciclassem todos os seus materiais. Ele não estava buscando apenas terra e segurança para as famílias e comunidades extrativistas. Estava buscando condições de vida ecologicamente sustentáveis. Ele queria conciliar os direitos sociais e a melhoria nas condições de vida com formas de uso dos recursos naturais que garantissem a conservação da floresta.

Um pensamento em evolução

Mas deixemos o próprio Chico falar sobre o assunto, através da riquíssima e abundante documentação primária reunida por Mary Alegretti em sua tese de doutorado (que será publicada ainda este ano, pela editora Hucitec, com o título de "A Construção Social de Políticas Ambientais: Chico Mendes e o Movimento dos Seringueiros"):

- “Sim, realmente, quando ele empata, quando ele parte para o empate, realmente ele tá defendendo a própria vida da seringueira, da castanheira, que prá ele é tudo. O seringueiro, tem que ver! O seringueiro, ele tem um amor à seringueira, à castanheira, então, aquilo toda a vida até hoje, durante um século, foi a sobrevivência deles, aonde ele nasceu, ali” (entrevista feita em 1981).

- “Meu sonho é ver toda essa floresta preservada, conservada, porque nós entendemos que ela é a garantia de todo o futuro dos povos da floresta. E não é só isso. Nós não queremos, nós estamos conscientes de que a Amazônia, ela não pode ser um santuário intocável... Agora a sua destruição, eu acho que significa o genocídio de todos nós, que moramos nessas matas e com repercussão negativa para o resto do país e prá própria humanidade, eu acho... E eu acredito que na medida em que as primeiras reservas extrativistas começarem a dar os seus frutos, o governo vai ter que reconhecer a importância desse trabalho que nós pretendemos desenvolver. Para o nosso bem e para o bem de toda a humanidade. Esse é o meu sonho. É ver a Amazônia livre dos fazendeiros, livre das motoserras, livre do fogo devorador. Esse é o meu sonho” (entrevista feita em 1988).

Entre o discurso de 1981 e de 1988, obviamente, existe uma evolução. A sua percepção veio se ampliando. A importância de conservar determinadas árvores, no contexto da floresta, ganhou uma dimensão cada vez maior: a conservação da Floresta Amazônica como um valor universal. Ocorre que tal evolução foi absolutamente normal, como acontece na percepção de todos os que estudam e vivenciam seriamente uma determinada questão. Ela foi fruto da vivência e do aprendizado de uma mente profundamente comprometida com uma causa. É fundamental notar, no entanto, que a consciência de conservação estava presente desde o início. Ao contrário do que Marc afirma (“em honra à verdade, as reservas extrativistas não se iniciaram como unidades de conservação”), a proposta das reservas extrativistas trazia a marca da conservação florestal desde a sua origem. Não era apenas uma proposta de reforma agrária. É possível observar, por outro lado, estudando a documentação primária, que a proposta não nasceu de fora para dentro. Ela nasceu das próprias lutas e debates do movimento dos seringueiros nos anos 1980 (em sua interação criativa com outros setores do ambientalismo, conforme indiquei acima).

Um herói ambiental

Um comentário final: a segunda entrevista foi feita no ano do seu assassinato. A ameaça era mais do que evidente. Uma verdadeira crônica de uma morte anunciada. Vale lembrar que Chico retornou ao Acre contra a vontade de vários dos seus amigos, que queriam que ele se refugiasse no Rio de Janeiro. É difícil, para quem não vive no andar de baixo da sociedade brasileira, especialmente nas suas fronteiras sem lei, entender o que significa a pressão psicológica do convívio permanente com a ameaça de morte. Vou me permitir contar um episódio, ocorrido em 1992. Na época eu atuava como coordenador da área de florestas da Greenpeace na América Latina e tive a oportunidade de conhecer Arnaldo Ferreira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Eldorado do Carajás. Era um típico camponês do interior de Minas, um homem pacato e trabalhador como outros que conheci na minha infância, que migrou para a Amazônia em busca de terra para criar seus onze filhos. Seu cristianismo visceral, assim como seu instinto para as boas causas, o levou a aproximar-se da luta pelo direito à terra e, cada vez mais, contra a destruição da floresta. Por esse motivo participou como voluntário de algumas atividades da Greenpeace, inclusive de uma ação direta em Rio Maria para denunciar os estragos causados pelo corte desenfreado do mogno. Um dia, brincando, me disse que era bom ter um macacão com o símbolo da Greenpeace, pois isso faria com que os poderosos locais tivessem receio de atirar contra ele (como já havia ocorrido antes). Recordo que, até para desanuviar o clima, pois sabíamos que a ameaça era real, nos divertimos contando alguns causos e estórias, como se a crueldade daquele mundo fosse apenas uma miragem distante. Mas não era. Alguns meses depois Arnaldo foi fuzilado na cama de sua casa, na frente dos seus filhos.

Por que estou contando essa história? Em primeiro lugar, para lembrar o nome de um outro herói da Amazônia, incomparavelmente menos conhecido do que seu companheiro acreano, por quem tinha grande admiração. Em segundo lugar, porque deveria estimular, entre outras coisas, uma importante reflexão: como agiriam os ambientalistas que ocupam degraus mais confortáveis na “hierarquia das necessidades”, entre os quais eu me incluo, se colegas de vida e trabalho, em nossas associações, organizações e fundações, fossem sistematicamente assassinados? Qual seria a nossa reação diante da violência absurda e cruel que está longe de ter fim no Brasil? Agüentaríamos o tranco com a mesma garra de Chico, Arnaldo e tantos outros? É importante ter sempre em mente histórias como essa, para conhecer melhor o país em que vivemos. Elas servem também para ressaltar a coragem e o heroísmo de um homem como Chico Mendes, que era capaz de falar em bem da humanidade sabendo que a faca estava no seu pescoço. O fato é que para quem conheceu alguma coisa dessa realidade cotidiana de injustiça e opressão é quase tragicômico ouvir falar na violência e agressividade dos sem-terra, extrativistas e quilombolas...

Enfim, todos os motivos expostos acima, e muitos outros que não mencionei, me fazem querer sempre continuar relembrando e saudando, junto com outros que viveram experiências semelhantes, a memória do Chico que a gente teve a ventura de conhecer. Um homem comum, um grande homem, um herói do povo brasileiro, um verdadeiro herói ambiental.

(Back)

Home

10 Previous Posts

  • 12/07/07, Valderez Caetano, LDO prevê salário míni...
  • Ian Bush Denouement
  • 24/06/07, Neil MacFarquhar, Iran Cracks Down on Di...
  • 22/06/07, Diana Jean Schemo, It’s Anger, Not Nosta...
  • Capitulation or What?
  • Bone Heads
  • 19/06/07, Margaret Wente, Are you feeling safer now?
  • 19/06/07, Editorial, To bring openness to the Moun...
  • 18/06/07, Gloria Galloway, 'Broken' RCMP will be f...
  • Senate Energy Bill